sexta-feira, 23 de março de 2012

XI Semana Mulher e Poesia - Entrevista 1

De 8 a 14 de março, o curso de Letras da UnP, com o apoio do grupo PET/Literatura Norte-Rio-Grandense, realizou a XI Semana Mulher e Poesia,  com o tema “A palavra é o meu domínio sobre o mundo” (Clarice Lispector). O evento contou com a participação das poetisas Anchella Monte e Lisbeth Lima e da jornalista e blogueira Sheyla Azevedo, que, na ocasião, foram entrevistadas por Canniggia de Carvalho e Talles Campello, alunos do 5a série de Letras e bolsistas do PET.

Anchella Monte
 

"Eu acho que a palavra é que me domina!"
PET - Como nasceu a poetisa?

Anchella Monte - A poeta, eu prefiro, nasceu com a leitora, com a paixão pela leitura, então, fui me identificando com a escrita; lendo muita poesia, copiando no caderno, recortando, fazendo ilustração ao lado. No meu tempo, que já faz algum, havia muita publicação de poesia em jornal, coisa que não existe mais, até quando há lançamento de livro e se faz entrevista, dificilmente, se coloca uma estrofe que seja do poema do autor. Em outros tempos, em todo jornalzinho de bairro, de cidade, se publicava poesia.

PET - Quais são as suas influências?

Anchella Monte - Nessa primeira fase da vida eu lia muito os poetas românticos e os parnasianos, porque eram os mais publicados, como Castro Alves, Casimiro de Abreu, Gustavo Teixeira, Olavo Bilac. Depois que eu conheci Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Mário Quintana, minhas grandes paixões, tornaram-se amores eternos. Então, creio que as minhas influências vieram de muitas fontes, muito misturadas, pois eu li os parnasianos, simbolistas, modernistas, pós-modernistas. Aproveitei um pouco de cada fonte. Não posso deixar de lado  Fernando Pessoa, “estes” que me permitem o autoconhecimento, que adoro ler em voz alta, andando pela casa, quando consigo ficar só. E os poetas potiguares, tantos, tão bons.

PET - E o seu poema, como surge?

Anchella Monte - Eu sou muito observadora, mas muitas coisas que  escrevo surgem da minha vida, pois acho que não tem como separar a sua vida da matéria-prima poética. Também tem muitos elementos relacionados a minha infância, que foi uma fase muito rica. Isso à parte,  sou muito de olhar a vida, as pessoas. Por exemplo, tem um poema, no Temas Roubados, chamado “O carneiro”, que parte de uma história que uma amiga me contou sobre um carneiro morto para um churrasco, quando, com a família, comemorava  na praia uma data festiva. Ou seja, surgem poemas de relatos, de coisas que vejo, que sinto, de leituras.

PET - Depois que você lê o seu poema publicado, existe a vontade de voltar a ele, revisá-lo, dizer de outra forma?

Anchella Monte - É meio complicado porque, dificilmente, quando eu termino de escrever um poema eu acho que está pronto;  fico com ele na mente. Acho que os escritores, em geral, têm essa vontade de mexer no texto. Então não é uma sensação de alívio, de satisfação; sempre fico me perguntando se está bom.

PET - O seu primeiro livro foi uma parceria com outras pessoas. Como se deu esse processo?

Anchella Monte – Todos nós éramos muito jovens; era um grupo de pessoas que adoravam ler poesia, literatura. Nós nos encontrávamos na maioria das vezes em minha casa, mas até na praia, para ler poesia e tocar violão, todo mundo empolgado com a vida, filosofando o tempo todo. Líamos O Despertar dos Mágicos, Krishnamurti, ficção científica e muita poesia. Todos nós escrevíamos, e então alguns resolveram fazer uma seleção e, depois, publicamos de forma bastante artesanal, quase rudimentar, com a ajuda do tio de um dos companheiros, que trabalhava na gráfica do então ETFRN. Foi lindo, foi uma ótima experiência.

PET – Entre os seus livros, há o preferido?

Anchella Monte – Não, não tenho. Mas, se levarmos em conta a elaboração poética, da responsabilidade com o leitor, sem dúvida nenhuma escolho Pesos e Penas, livro que recebeu ótimas críticas de colegas de poesia.

PET - E a Anchella professora?

Anchella Monte – Eu estou em sala de aula há 33 anos. Sempre trabalhei muito com adolescentes, no Ensino Fundamental II; já ensinei no Ensino Médio, mas não houve afinidade, por isso prefiro os mais novos. E, enfim, a gente brinca, briga (risos). Eu já estou “pedindo arrego”, a gente vai cansando, e eu também tenho outros projetos com a escrita e muita vontade de trabalhar com revisão, o que gosto sempre de fazer. Aliás, no ano passado,  participei, junto com um amigo, da revisão da obra completa de Henrique Castriciano, uma atualização linguística, para ser mais exata.

PET - Você acha que a professora influi no momento de criação da poetisa?

Anchella Monte – Talvez na experiência de vida e no próprio trabalho com a palavra, pois eu sou professora de Língua Portuguesa, o que me faz estar sempre observando a palavra, a palavra na frase, o efeito da palavra no contexto, nas pessoas que as ouvem.

PET - Você vê a sua palavra como o seu domínio sobre o mundo?

Anchella Monte – Eu acho que a palavra é que me domina! Nós somos a palavra, nós pensamos palavras, até os nossos sentimentos se moldam através da palavra; enfim, lidar com a palavra é a ligação com a vida, é o nosso fio, nosso elo com aqueles com os quais compartilhamos este mundo e este tempo.

3 comentários:

  1. Anchella foi imprescindível para minha formação, pessoa/”poeta”.

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    1. Maria Luiza, obrigada! Um grande abraço.

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  2. Obrigada, grupo PET! Principalmente pela forma respeitosa e gentil com a qual nos acolheram. Meu agradecimento especial à professora Conceição Flores, pelo estímulo (visível!) dado aos alunos no sentido de amarem literatura e valorizarem a produção potiguar. Obrigada ainda ao professor Máximo, solidário no momento em que não me senti fisicamente bem. Abraço em todos e coloco-me à disposição sempre que precisarem.

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