quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Entrevista com a autora Salizete Freire Soares




Formada em Letras pela UFRN, Salizete Freire Soares é professora da rede pública desde 1985. Lecionou no Instituto de Formação Superior Presidente Kennedy e no curso de Pedagogia da UFRN. Atualmente é coordenadora do programa do Livro Didático da Secretaria de Educação, Cultura e Desporto do Rio Grande do Norte e do Programa Agentes de Leitura do RN. Este ano, a professora concorre ao Prêmio Jabuti 2012, na categoria infantil, com o livro Mundo pra que te quero e nos concedeu uma entrevista na qual falou sobre os seus projetos de leitura e o prêmio.


PET-Você é formada em Letras e tem um trabalho forte com projetos de leitura. Por que você optou por essas questões?

Qualquer universidade que trabalhe com o curso de Letras faz essa mediação livro-leitor, são coisas que fazem com que o curso seja apaixonante. E, por outro lado, não tem como você evitar a entrada nesse universo da leitura, e como leitura requer espaço, a gente trabalha principalmente com os projetos e com as políticas públicas

PET-Houve algum livro, em especial, que tenha sido responsável pela sedução pela leitura?

Sim, eu tenho alguns autores pelos quais sou apaixonada, como é o caso do Eduardo Galeano, não só pelo livro As veias abertas da América Latina, mas por um livro chamado A escola do mundo ao avesso e Palavras andantes. Até hoje eu leio Galeano muito apaixonada. Ele é um dos responsáveis.

PET-Atualmente há uma gama variada de livros para o público infantil. O que você considera essencial nos livros destinados às crianças? Como é o seu trabalho para esse público?

No caso da minha produção, o que eu acho essencial é a consciência de para quem está se escrevendo, e quando a gente tem essa consciência, estamos centrados nessas fases de idade, nas faixas etárias, pois, quer queira quer não, existe uma psicologia voltada pra esse desenvolvimento cognitivo da criança, e em cima disso, temos um zelo de não querer passar lição nem nas linhas nem nas entrelinhas. E, mais ainda, temos que ter o cuidado de não apresentar conceitos fechados pra não tornar qualquer concepção preconceituosa.

PET-A sua formação em Letras interfere no seu processo de escrita?

Com certeza, porque, como o pessoal da nutrição sempre fala: “a gente é o que a gente come”, eu digo que a gente é o que lê, então, sem repertório você não escreve nem um bilhete, muito mal passa e-mail. Então, é por isso que eu não tenho medo das tecnologias, porque a gente é bom na tecnologia quando a gente lê e sabe, inclusive, ter critério de seleção e ser bom para que aquilo seja um meio de divulgação.

PET-No seu perfil do Facebook, você se descreve como uma pessoa que adora ler. Como é que você vê a leitura para a formação do professor?

Eu percebo que as políticas para a leitura são ainda muito tímidas porque, de modo geral, o Brasil ainda lê muito pouco. Temos poucas livrarias e poucos espaços para a formação desse leitor, com atração para isso, com ludicidade. Então, eu vejo que ainda tem muita coisa pra se fazer, e isso não é culpa do professor, é culpa de uma cultura que não “letrou” a gente.

PET-Você coordena o Programa Agentes de Leitura no RN. Poderia nos falar um pouco sobre esse projeto e quando ele começará efetivamente.

Foi um projeto que nasceu no Nordeste e agora está no MEC como se fosse do Sul, mas ele é do Ceará, vindo das comunidades extremamente pobres, com um sujeito que é o “cara” na leitura e que hoje, por mérito, está em Bogotá, chamado Fabiano Piúba, nascido em Currais Novos. Ele quem começou com esse projeto, antes chamado Mediadores, no Ceará, visitando as comunidades humildes com uma bolsa de livros. Ele chegava naquelas mulheres que estavam fazendo renda, fazendo bolsa de palha, e lia uma história. Numa dessas passagens uma coisa muito linda aconteceu. Foi quando uma daquelas senhoras, que talvez fossem todas analfabetas, falou para ele: “meu filho, minha vida todinha está nesse livro”. O Agentes de Leitura nasceu aqui e hoje está no Brasil todo, um projeto que teve dificuldade quando passou pelo crivo das bancadas políticas. Ainda assim, o projeto está seguindo em frente. Aqui em Natal já temos um bom acervo e uma seleção pronta de agentes.

PET-Neste ano, você está entre os finalistas do Prêmio Jabuti. Como está sendo essa experiência?

É como você falou: está sendo realmente uma experiência. Sem falsa modéstia, eu não esperava, pois o Jabuti representa pra nós escritores o Nobel ou o Oscar, e você vê que eu fiquei entre os dez, numa seleção onde estão também Ziraldo, Inácio de Loyola Brandão, Roger Mello entre outras figuras conhecidas. Então, querendo ou não, a gente se encolhe porque são pessoas já consagradas, com nome no mundo. Contudo, o que essa experiência está querendo dizer é que tudo o que você faz com empenho, com emoção, com tesão, tem um retorno. Esse é o reconhecimento, e eu não comecei a escrever ontem, eu comecei na década de 1990 e se você fizer as contas isso dá mais de vinte anos de produção, ou seja, não é à toa, você rala muito, transpira muito.



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